domingo, 29 de junho de 2008
Sobre a greve...
Lógico que é sabido por qualquer um com o mínimo de consciência crítica, que o governo Serra tomou várias medidas que pioraram a situação da educação, como o fim da Bolsa Mestrado; proibição de sair com os alunos para quaisquer aulas-passeio, somente as que estivessem no planejamento da SEE – ex.: em comemoração aos 100 anos de imigração japonesa, poderíamos levar os alunos a museus com exposição sobre o tema; três anos sem aumento salarial; implantação de cadernos com aulas feitas e, em sua maioria, inviáveis para serem lecionadas com salas gigantescas; implantação de jornais para “recuperação” dos alunos em 40 dias, sendo que a progressão continuada (seria melhor, regressão pedagógica continuada) fez um estrago gigantesco de anos e anos e não seria em 40 dias que os alunos se recuperariam…; todo esse novo projeto educacional teve gastos exorbitantes para os cofres públicos. Enfim, tantos são os exemplos do sucateamento da educação desde o governo dos tucanos, e com piora no governo Serra. Tudo de nosso conhecimento e nossa desaprovação.
Mas, o que enraiveceu os professores ainda mais foi o tal decreto acima mencionado. E a greve começou por causa do decreto. A primeira bandeira da greve é a revogação do decreto.
Na rede estadual existem 230 mil professores com aulas e 17 mil eventuais. Dos 230 mil, 130 mil são efetivos e 100 mil são OFAs, pensem como a maioria dos OFAs ficou ao saber que tinha que fazer a tal “provinha”!! Muitos que estão no estado há mais de 15 anos e nunca se esforçaram pra estudar um pouquinho mais para passarem num concurso! Não é só esse o problema da educação estadual, mas é um dos problemas, com certeza. Por isso concordo com o decreto… Provas anuais sim e concursos periodicamente, pois contratar 100 mil de uma vez é inviável. Há no decreto também a questão das remoções, mas neste post prefiro me ater apenas à prova pra OFAs.
Convenhamos: PROVA PRA OFA?? UFA!!!!! Leiam o que achei numa comunidade de professores do estado de SP em que eu era persona non grata. Atentem para o domínio da concordância entre as palavras de uma professora OFA:
“25/06/2008
Vamos ser sincero, é o Fim da GREVE
Essa mudanças só beneficiaram os Efetivo.Foi decretado o fim dos OFAS, mesmos quem passar nessa prova não terá aulas.O estado fará concurso para carga horário de 10hs.Sendo assim, quem passar nesse concurso vai ficar com o restante das aulas.Existe escolas com 16,18 aulas e ñ é possivél formar cargo.As mesma antes ficava à Carga Suplementar e OFA. E agora adeus!Sou OFA, e estou extremamente afrita!”
Não sou nunhuma expert em português, mas isso que está acima é um absurdo!! A moça está “afrita”, e os alunos que têm aula com ela, fritos, coitados. Meu Deus! É demais! E essas peças sentem-se apenas vítimas do péssimo sistema educacional estadual!! Gritam, inflamados: “Temos que manter a união dos professores”!!! Não se sentem responsáveis e só culpabilizam o governo. São massa de manobra da APEOESP e de partidos ligados a este sindicato. As assembléias parecem mais comícios... Bandeiras de Conlutas pra cá, de CUT pra lá...
Não me sinto de lado nenhum… E ainda ouço que andam a falar de mim na escola: "Nossa, a F., contra a greve? Não acredito! Ela que deveria encabeçar a greve, é professora de História!!"... É mole? Estou perdida que nem cego em tiroteio. Não perdida com relação às minhas reflexões e convicções sobre a educação e sobre esses últimos dias de greve, mas perdida sem ter um sentimento de pertencimento a uma classe. É dureza. No entanto, fico bem melhor às quartas-feiras... Aí sinto que pertenço a um grupo, por menor que seja.
Vida longa às nossas quartas-feiras!!
terça-feira, 24 de junho de 2008
UMA DIRETORA CHAMADA NINGUÉM
QUER SABER COMO FOI ONTEM, NA REUNIÃO? VOU EXPLICAR COM ESTE PROJETO DE LEI:
Dispõe sobre a moralização do serviço público, para ver se com os seus filhos matriculados e estudando nas escolas públicas, os servidores passam a ter maior vergonha na cara e trabalham adequadamente, para todos:
Artigo 1º - A partir desta data torna-se obrigatório que todo servidor público, independente de função ou cargo, está obrigado a matricular seus filhos e filhas em escolas públicas, estaduais ou municipais.
I - os servidores públicos que tiverem filhos na rede particular têm um prazo de 03 (três) meses para providenciar a regularização.
II - os infratores sofreram afastamento do cargo, suspensão do recebimento dos provimentos, podendo ainda serem processados de acordo com a Lei 10.261/68.
Artigo 2º - Ninguém está acima da Lei.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
PRESENÇA SENTIDA
Ah! Ela adora cachorros. Tem muitos na casa dela, ajuda instituições que cuidam de cachorros abandonados. Ai de quem falar mal de cachorro perto dela...
Só que ela tem um probleminha, não gosta de gente. Sempre diz: "Não quero saber de aluno aqui" [se referindo ao primeiro andar, e no segundo andar ficam os alunos]. Outro dia, durante o início do ensaio da quadrilha, as crianças fizeram uma zoada no corredor e foi o suficiente para ela finalmente sair do gabinete ordenando "Se em 15 minutos não tiver ordem, quero todos de volta pra sala de aula".
Pois bem, semana passada foi a vez de anunciar uma possível antecipação do seu desejo de acabar com as salas ambientes (que desde fevereiro ela não engoliu). Como ela sobe muito raramente aos corredores das salas de aula do andar superior, a ponto de estranharmos quando a vemos, aconteceu dela presenciar uma troca de aulas tumultuada pela falta de inspetores no corredor, visto que estão cuidando de outros intervalos. Já começou a dizer que esse negócio de sala ambiente não dá certo, que vira bagunça, que os alunos demoram para entrar na sala (veja como é insuportável para a pobrezinha ver seres humanos andando, falando, respirando perto dela) e que É melhor sala convencional. Eu, muito diplomaticamente, com o auxílio de uma colega, expliquei que sem inspetores nos corredores, mesmo com salas convencionais, eles sairiam da sala de aula e demorariam a voltar... Mas, é mais fácil acabar com as salas ambientes do que tentar arrumar o barraco.
Neste caso, não sei o que é pior, uma ausência sentida ou uma presença sentida.
Sobre Meter Colheres
O prédio do colégio tem seis lances de escada. Cada degrau que o menino desceu – um por um, com suas pernas curtas -, ressonou como o tic-tac de um relógio: Seu pequeno cronômetro pessoal marcava a, infeliz, contagem regressiva. Lá em baixo já havia o som da boca da professora - não o das palavras que soltava, lançadas aos ouvidos da mulher já nervosa; mas o som diminuto de cada gotícula de cuspe, dessas que fogem do estômago em momentos de discurso inflamado. Como uma espécie de dinâmica fisiológica, cada reclamação emanada, vazava áspera pelos tímpanos da mulher frente à escada, e assim, logo transformava-se em algum tipo de material etéreo, que deixava os olhos dela cada vez mais vermelhos. Três, dois, um: O pé do menino no chão, a mão de sua mãe em seu rosto. Numa situação delicada, não é difícil presumir a necessidade de um bom primeiro argumento. O dela foi um forte, muito forte, tapa na cara. O som ecoou no hall de entrada, alto como bombinha. Além dos dedos tatuados na bochecha, o menino, sem tirar os olhos da mãe, notou a energia dos olhares em sua volta: Uma atmosfera omissa, que só reverberava o som daquele ato. Foram cerca de dez minutos de gritos a um palmo de distância do rosto, de socos e tabefes, nos braços e na face; mais que isso: Na alma. Ficou claro quando, finalmente, o inevitável aconteceu. Uma pequena e tímida lágrima caiu do cantinho de seu olho esquerdo, deslizou pela bochecha, bem breve, ao cruzar seu rosto. Depois de seiscentos segundos...
Será que ele não vai mais matar aulas? As conseqüências desse ato, tenho certeza, irão muito além da hora da chamada. Eu mesmo, que apanhei quando pequeno, sinto hoje vontade de resolver isso na porrada. Reflexo. Mas como eu poderia explicar praquelas duas?
- Senhoras, não; isso não é, como se diz?... Pedagógico.
Uma é a mãe, a outra a professora...
DESEJOS
- ter dormido até mais tarde;
- ter acordado encochado - ou encochando - a minha namorada;
- ter tomado o café com leite da mamãe;
- ter entrado na sala de aula com meus alunos;
- ter dado a melhor aula de minha vida.
Mas hoje eu acordei cedo. Sozinho. Não tomei café, não teve aula na escola e, pra ajudar, tenho uma reunião com a Dirigente de Ensino para decidir o nosso destino. Não o meu e o dela. O meu e o dos alunos e alunas da minha escola.
Estou tremendo. E não sei se é do frio.
domingo, 22 de junho de 2008
Paz no bairro educador
Bom, durante o percurso pelas vielas do tal bairro educador várias pessoas, de várias entidades, faziam o uso da voz com um microfone oferecido pela organização da caminhada. Era um tal de "pelo direito de livre expressão", "por um bairro sem discriminação contra homossexuais", "paz, paz, paz"... Aquilo já estava atingindo meus nervos. Pensando, comecei a elencar os principais problemas relacionados à falta de PAZ dos nossos alunos. Grosseiramente surgiram dois, a partir dos atendimentos quase diários aos "responsáveis" chamados na escola: a violência cometida contra as crianças (física, sexual, moral, etc.) e a violência contra as mulheres.
Quebramos mais algumas vielas e nada de ninguém sequer mencionar alguma palavra sobre. Pois foi quando a mulher com o microfone passou do meu lado (um cara tinha acabado de falar ao microfone "Eu amo o Brás!!!") e resolvi falar sobre o incômodo.
"Gostaria que todos pensassem em como efetivamente acabar com a violência contra as crianças e as mulheres..." Um silêncio se fez e depois uns gritos de "É isso aí!" o quebrou.